Um aspecto do mundo dos estudos e práticas da comunicação sempre me incomodou: afinal, o mercado e as universidades funcionam juntos? Esse incomôdo, que aparentemente eu partilho com meio mundo, veio à tona em minhas reflexões quando eu partipava do XXX Intercom – Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, realizado em Santos, na semana passada. O tema do evento, que na verdade é uma reunião de diversos acontecimentos num só, foi Mercado e Comunicação na Sociedade Digital.
Mas, óbvio, não vim falar do evento, e sim da minha inquietação. Para tudo no mundo da comunicação existe o lado acadêmico e o lado do mercado. Nas aulas você escuta “bem, na prática é outra coisa”. E no mercado você ouve “então, esquece a teoria”. E a mãe, vai bem? Enfim, revoltas à parte, sempre me preocupei em manter os pés tanto na academia como no mercado (apesar do dia ter apenas 24 horas), e sempre tentar compreender como um lado pode contribuir com o outro. Infelizmente, a coisa não é fácil. Mas não é impossível, que fique claro!

O conhecimento acadêmico – falando da minha experiência como estudante de Publicidade da USP – serve como um ótimo aporte de teorias que se bastam como teorias, ou seja, são genialmente formuladas, com ótimas explanações e desbravadoras de perspectivas inovadoras que podem ser apenas aplicadas em pequenas situações do dia-a-dia, ou conseguem até mudar drasticamente sua filosofia de vida. Como dizem alguns mestres, “serve para engrandecer a pessoa, o humano, a formação individual“.
Do outro lado da Força, falando como integrante da equipe de Planejamento da CO.R estratégias de inovação, as práticas do mercado conseguem te mostrar a realidade das relações de trabalho, a importância das técnicas e a essência de um projeto de comunicação. O mercado, como um grande fluxo de informações, também gera conhecimento, e acaba criando uma linguagem própria, esta formadora dos tantos jargões utilizados mundo afora. E é bom lembrar que, em todos os casos, as práticas de comunicação precedem as respectivas teorias. Logo, mercado e academia têm tudo a ver, não é? Calma, não é bem assim.

Os problemas a serem transpostos são os seguintes:
1. As diferentes teorias - Enquanto no mercado se fala de share of mind, na sala de aula estudamos as marcas relacionadas aos valores sociais. Enquanto na sala falamos de planejamento de pesquisa exploratória, o mercado manda você bolar um roteiro para ser aplicado daqui a duas horas. Lá é branding, aqui é comunicação institucional. Ali é gerar buzz, acolá é pensar numa ação de comunicação espontânea.
2. As diferentes linguagens – Na verdade, este tópico é o mesmo do primeiro, só que com outro enfoque. Enquanto os altos executivos do mercado e a alta cúpula do meio acadêmico se concentrarem em suas respectivas bolhas, o compreendimento mútuo fica complicado. Lovemarks, long tail, media neutral, co-criatividade; todas essas teorias acabam sendo traduzidas pelos pesquisadores acadêmicos. Identidades culturais, arquétipos, processos de significação, enunciação lingüística; esses conceitos uma hora ou outra são adaptados ao mercado.

Onde mora o problema? Na tradução e na adaptação. A partir do momento que algo precisa de adaptação, de tradução, de um “tira-isso-bota-aquilo”, muito se perde no caminho, e não que isso seja um problema novo. A solução? Coloca todo mundo para pensar junto! Ouvi falar que tem agência por aí investindo em hubs de inovação, contratando atropólogos, sociólogos, psicólogos e outros “…ólogos” para trabalhar lado a lado com planejadores, criativos e atendimentos. Este tipo de iniciativa mostra que, ao meu ver, mercado e academia deveriam ser uma coisa só. Mas não me pergunte como!
E aí? Será que dá liga?
Rafael Lavor