Hoje vamos de um post menos aprofundado, entranto não menos intenso em palavras e, quiçá, auto-insultos. Falemos do melhor amigo do publicitário: o ego. Esqueçamos a definição psicológica formal junguiana e apelemos para o senso popular, aquele mesmo que define o ego como sendo um componente individual dotado de uma incrível e irrepreensível sensação de bem-estar provinda do reconhecimento interno ou externo da própria capacidade técnica e criativa de ser genial, foda, extraordinário ou simplesmente fenomenal.
Este é um dos assuntos que mais encoberta a hipocrisia do mundo publicitário, ainda que não seja o único círculo a desencadear tal fenômeno. Falo com veemência deste precioso mundinho pois me insiro nele de corpo e alma, acadêmica e profissionalmente. Venho aqui, num átimo revolto, expressar o asco que sinto por esse peculiar habitante que habita onze de cada cinco publicitários deste planeta. Mesmo a estatística sofrendo de extremismo, creio que existam compensações em alguns seres dignas de (des)respeito. Este asco, por assim dizer, é originado em minhas entranhas não somente pela minha pessoa abrigar o tal asqueiroso, mas por reconhecer alguns hospedeiros em estado irrecuperável.
Nomes, ó-b-v-i-o, ficam de fora, mas se sintam, caros leitores do ramo, honrados em adquirir peso na consciência ou, pelo menos, um sorrisinho safado no cantinho da boca. Sintomas estes que vêm a calhar em denotar a tamanha e velada idiotice nas atitudes de cada um de nós. Aquelas mesmas às quais não damos a mínima, pois mesmo nosso ofício as torna como um componente indissociável da personalidade exigida neste mercado de trabalho.

É aquela involuntária soberba de regurgitar um “não”. Aquele desprezo descriterioso e imediato pelo conceito de outrem. Aquela mínima vontade irrefutável em aceitar modificações em si ou no próprio trabalho. A própria capacidade em criar propositadamente e apressadamente algo irrelevante, pretensioso e antiquado. Infectados ou não pelos exemplos dados, a culpa, claro, não é do indivíduo publicitário. É de todos os publicitários articulados, que, dia após dia, constroem um mercado desde sempre instável e aparadigmático, controversamente enraizado em noções engessadas de comunicação mercadológica.
Mas calma! Ainda podemos celebrar a criatividade! Isso! Vamos celebrar a representação de nosso ego numa mídia – de preferência na televisão – e ganhar um prêmio que não tem nada a ver com o objetivo da profissão, e ainda ser agraciados ao belprazer de escutar “vocês são muito criativos!”. Vamos participar de enormes e pomposos festivais, em que o ego de todo mundo tem o direito de pagar pau para o cara de ego brilhante – falante de uma língua que varia entre o português e o inglês – que está mostrando os conceitos e tendências mais reciclados e ruminados da publicidade, daquela agência super legal e que tem o maior cliente do muuundo! Melhor ainda: vamos pagar por isso!
O mais irreverente é se falar nos conceitos inovadores de comunicação, na publicidade constantemente renovada e nas malditas novas tendências, que nada mais – repito – nada mais são do que novos significantes para os mesmos significados que perduram impregnados no inconsciente coletivo publicitário como dogmas religiosos. As tecnologias mudam, a sociedade muda, o comportamento do mais-que-alvejado público-alvo também muda, e concluímos que a publicidade também muda, mas somente no eixo paradigmático do bendito ofício! Filosoficamente ou não, a função, o objetivo, o cerne, a essência, o sintagma do negócio continua lá, tranqüilo, bonitinho e cheio de amor para dar. Critiquem o criticador o quanto quiserem, mas não neguem: todos falam da publicidade de ponta, mas ninguém lembra de mencionar o resto da vara!
A técnica de vendagem publicitária é tão viscosa ao ponto de moldar a própria indumentária do indivíduo que, tomado pelo ego simbionte, aprende a ser vender com uma naturalidade irritante. Explicitando como quiser, padecemos de um mal comum, contagioso, quase que imperceptível a coração nu, manifestado em níveis variados e que carece de profilaxia e de tratamento eficientes. Só nos resta a conformidade desvelada e a sem-vergonhice. E assim o mundo da publicidade continua dando suas voltas… no próprio umbigo.
Agora tendo dito, Rafael, ponha-se no seu lugar!
Rafael Lavor
P.S.: Isto foi, antes de mais nada, uma crítica a nossa própria inércia.