Arquivo para Outubro, 2008

Curiosidade: outro ponto de vista

“Quanto ao motivo que me impulsionou [a escrever A História da Sexualidade] foi muito simples. Para alguns, espero, esse motivo poderá ser suficiente por ele mesmo. É a curiosidade – em todo caso, a única espécie de curiosidade que vale a pena ser praticada comum pouco de obstinação: não aquela que procura assimilar o que convém conhecer, mas a que permite separar-se de si meesmo.

De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição de conhecimento e não, de certa maneira, e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar e refletir.”‘

Trecho retirado do livro História da Sexualidade, de Michel Foucault

Diego Senise

Remorso: outro ponto de vista

Charles Baudelaire, As Flores do Mal

A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez
Habitam nosso espírito e o corpo viciam,
E adoráveis remorsos sempre nos saciam,
Como o mendigo exibe a sua sordidez.

Neste poema, Baudelaire nos traz um ponto de vista sobre o remorso bem oposto ao que nossa tradição cultural no conta. Sendo nosso corpo e alma viciados nos atos e prazeres mais “impuros” (mesquinhez, pecado), o remorso posterior a este atos não seria ruim.

Diego Senise

Outro ponto de vista

Depois que passamos a escrever pequenos drops sobre a “conversa dos outros”, eu e o Rafa paramos pra pensar o que mais poderia servir de matéria-prima para inspirar nosso dia-a-dia. Chegamos a um ponto bem simples: trazer à tona outros pontos de vista com relação às coisas.

Pode ser com relação a uma palavra, uma idéia, um tema, uma propaganda, um comportamento etc. A idéia é parar pra pensar naquelas coisas que parecem estar tão estabelecidas nas nossas cabeças que nem reparamos (ou pensamos) direito nelas. O ponto de vista apresentado sempre será OUTRO, o que não significa verdadeiro, questionador, transgressor. É apenas um outro olhar.

Acreditamos que esse deslocamento do nosso olhar sobre as coisas pode arejar nossas cabeças e permitir que novas idéias surjam.

Diego Senise e Rafel Lavor

Arte sobre a inspiração

Os dois tratam de inspiração no momento sublime do estalo que transforma o pensamento em arte, do momento em que a palavra (ou a nota musical) é expelida do coração para a ponta do lápis com o qual escrevemos.

Essas duas obras geniais apresentam pontos de vista completamente opostos esse momento: Augusto do Anjos fala da agonia e a impotência diante da incapacidade de criar e Paulinho da Viola cria um encamento alegórico do momento em que o poeta consegue criar.

Acompanhe a música na versão do cd de Teresa Cristina:

QUANDO BATE UMA SAUDADE

Paulinhho da Viola

Vem quando bate uma saudade

Triste, carregado de emoção

Ou aflito quando um beijo já não arde

No reverso inevitável da paixão

Quase sempre um coração amargurado

Pelo desprezo de alguém

É tocado pelas cordas de uma viola

É assim que um samba vem

Quando um poeta se encontra

Sozinho num canto qualquer do seu mundo

Vibram acordes, surgem imagens

Soam palavras, formam-se frases

Mágoas, tudo passa com o tempo

Lágrimas são as pedras preciosas da ilusão

Quando, surge a luz da criação no pensamento

Ele trata com ternura o sofrimento

E afasta a solidão

O MARTÍRIO DO ARTISTA

Augusto dos Anjos

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!

Tarda-lhe a idéa! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!…
É como o paralítico que, à mingua
Da própria voz e na que ardente o lavra

Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem à boca uma palavra!

Diego Senise

Eco-chato x Eco-útil

Fiat Eco-Drivers é uma iniciativa para as pessoas passarem a consumir menos combustível. Você baixa o programa do site da Fiat, coloca num pen drive e coloca no carro. O programa vai analisar suas trajetórias e sua maneira de dirigir, mostrando jeitos possíveis de gastar menos gasolina. Complicado? Dá uma olhada nesse vídeo pra esclarecer:

Não é só um sistema que calcula o nível de carbono emitido. Iniciativas como essa já existiam há bastante tempo, mas atuam no sentido inverso. Elas “jogam na cara” das pessoas como elas são poluentes, como elas ajudam para a destruição do planeta. Depois desse jogo de consciência, pedem para elas comprarem o seu alívio em forma de cotas de reflorestamento.

Esta ação tem 2 méritos: o primeiro é ecológico – trata de evitar a poluição, não de remediá-la; o segundo é o fato de trazer utilidade não só para o ambiente mas para as pessoas. Ao conciliar economia de grana e sustentabilidade, a marca tira das pessoas qualquer desculpa para não utilizar aquele sistema.

Fala-se muito que no mundo colaborativo, as pessoas estão dispostas a ajudar  quando os temas são relevantes. Sim. Mas só quando as convém. Se a Fiat só criasse uma comunidade de Eco-drivers preocupados com mundo (mas sem um benefício tangível), a ação seria um fracasso. Como a comunidade é só um detalhe da estratégia, ela tem mais chance de sucesso. Precisamos parar acreditar na boa vontade das pessoas em colaborar. Até que me provem o contrário, penso que elas querem colaborar consigo mesmas.

Via: CCSP

Diego Senise

Conversa dos outros #3

Velhinho conversando com velhinha na fila de remédios do SUS, centro de São Paulo:

“Nunca tomei remédio. Meu remédio é carne gorda, forró e samba.. Não tenho mulher, não. Vou mesmo é procurar mulher dos outros. Levar mulher no baile? Não. É que nem levar marmita no restaurante!”

Conversa dos outros #2

Padaria Euroville, Pompéia

Um casal de jovens senta-se à mesa. Uma garota franzina, baixinha, com roupinhas coloridas de dia frio. Um garoto de chapéu, blazer de lã, e um presente para a garota escondido entre as pernas. Conversam baixo, falam sobre o tempo e sobre amigos, riem, sorriem e se calam. Num instante, a menina levanta e vai ao banheiro.  Nesse momento, o garoto aproveita a deixa, pega o presente, e o coloca cuidadosamente no assento da garota. Senta-se de novo, um pouco inquieto, e espera pela felicidade da amiga ao encontrar a surpresa no banco.

Ela volta do banheiro. Olha para o presente: um cavaquinho com um declaração de amor escrita em seu corpo. Ela faz uma cara amarela, aponta para o cavaquinho, entorta a boca, não sorri, e parece não entender o que está acontecendo. O rapaz tenta explicar, faz um esforço, mas já notou que ela não gostou. A cara dele seria cômica, se não fosse trágica.

Vícios privados, benefícios públicos

Uma das idéias mais legais que conheci nos últimos tempos foi a de Mandeville.

Em sua Fábula das Abelhas, o filósofo, economista e poeta nos traz um conceito que diz que vícios privados se convertem em benefícios públicos.

Trata-se da história de uma colméia próspera que pede a intervenção divina para redimir suas falhas morais. O resultado é que numa comunidade sem falhas morais, a colméia deixa de produzir e crescer.

A moral da história é que sem ambição, desejo de ostentação e outros “vícios humanos”, não haveria o equilíbrio de uma sociedade. Isso porque não podemos depender da bondade das pessoas. Sendo egoísta por natureza, podemos produzir indiretamente fins que sejam positivos do ponto de vista social.

Esta é uma ética que desconsidera as intenções e leva em conta só as conseqüências. A intenção do consumo do luxo é a diferenciação e o reconhecimento. Mas, esta intenção individualista acaba produzindo uma rede de progresso e sustentação de muitos pobres – que nem passaram pela cabeça de quem consumia.

No poema, o autor diz que:

“sons dissonantes produzem, unidos, um harmonioso acorde”.

Minha idéia aqui é extrapolar o tema puramente macroeconômico e ver como esta lógica que poderiam ser pensadas no nosso dia-a-dia.

Um bom exemplo deste pensamento vem do Citibank. A empresa paga dois salários: um em dinheiro e outro em “vale qualidade de vida”. A lógica é que o funcionário pode fazer atividades extracurriculares que serão bancadas pela empresa. Entre elas estão academia, aula de línguas, esportes, teatro etc.

Esta lógica poderia ser aplicada aos funcionários públicos. O vício privado de querer “sugar” ao máximo o meu empregador (que é natural, não somente para os funcionários públicos), os levaria a fazer atividades que melhorariam sua saúde. Desta maneira, o benefício público seria o menor número de faltas e de licenças médica.

Outra idéia ainda nessa pega de RH: o governo poderia fazer uma parceria com um supermercado para oferecerem aos seus funcionários um “cartão saudável”. Ele teria um crédito em dinheiro que só poderia ser gasto em produtos saudáveis (frutas, verduras etc.). Mesmo que não gostem muito destas comidas, os funcionários as levariam para suas geladeiras somente para não perder aquela oportunidade de graça. Seria uma maneira de mudar os hábitos alimentares das pessoas e, consequentemente, ter funcionários públicos mais saudáveis.

Como não podemos acabar com nossos vícios, por que não pensar algo de bom que resulte deles?

Diego Senise

Conversa dos outros #1

Campo Limpo, periferia de São Paulo.

“O churrasco virou a noite ao som de samba. Da laje, a gente conseguia ver as mansões do Morumbi olhando para um lado e a favela do Capão Redondo virando para o outro. Estava ficando de manhã quando todo mundo sentou. E ficamos lá, vendo o pôr-do-sol nascendo.”

Conversa dos outros

Tem uma coisa que eu e o Rafa passamos a fazer bastante depois que a profissão nos levou a observar o comportamento humano. A gente ficou viciado em ouvir a conversa do outros. Isso mesmo. Descaradamente. Ao invés de sentar no banco mais distante possível das pessoas no ônibus ou na padaria, a gente senta no mais próximo pra tentar aproveitar alguns drops de “vida real” fora da mundinho publicitário.

Essas pequenas história do dia-a-dia são deliciosas. Por isso, a maioria dos cronistas usa este método para escrever seus textos: retirar do dia-a-dia um momento interessante e, a partir deste recorte, desenvolver uma história.

É impressionante como elas trazem todo tipo de conteúdo para quem está ouvindo: humor, poesia, sofrimento, reflexão e, por que não, algum insgiht para o nosso trabalho. Porque é com amigos, família e namorado que as pessoas se abrem, falam os sentimentos mais profundos e verdadeiros… não numa sala de pesquisa.

Bom, a partir de agora, traremos alguns destes momentos de observação aqui para o Logopéia.

Diego Senise


a