Virtualize-se, ou serás virtualizado.

Falar em mudanças é fácil. A internet não se cansa de provar que todos estamos sempre defasados e movimentos mundiais ocorrem num piscar de olhos, seja uma crise econômica ascendendo ou uma nova rede social bombando. Aconteça o que acontecer nos tempos atuais, estamos todos vivendo uma ruptura gigantesca nas virtualizações que moldaram o ser humano. O problema é que poucos abordam o que há por trás dessa velocidade das conurbações digitais, da massificação do acesso à web e da premiação de “qualquer-zé-mané” em tempos hipermidiáticos. Recuperando Pierre Lévy, tô falando da técnica, da linguagem e do contrato: as essências da dinâmica do homem atual – e como elas tão mudando.

A questão da técnica está associada ao cerne digital de nosso mundinho de hoje. Enquanto muitos participam, poucos fazem, produzem, rearranjam. O poder está na mão de quem vota e veta, e não de quem sugere. Em 2001 – Uma Odisséia no Espaço, quem é o macho-alfa: aquele que só grita ou o que bate com o osso? E como o osso-ferramenta molda o comportamento do macacão? E como esse primata incorpora esse novo alongamento do seu braço? Como isso cria um novo padrão dentre seu grupo?

Na população de uma rede como o Orkut, por exemplo, quantas pessoas realmente entendem esse site como ferramenta? Quantos conseguem se aproveitar dessa ferramenta? E quantos conseguem bolar aplicativos para o Orkut? Nem me fale em democracia digital, ou em conhecimento coletivo. Gerar conteúdo por conteúdo, até o Akinator funciona bem – umas base de dados fácil e auto-sustentável na medida em que a mediocridade humana a alimenta. O ponto aqui é: participar e interagir é bem diferente de produzir e criar.

As línguas de programação digital acabam se tornando um novo latim, um novo grego, um novo francês, uma língua que circula por entre os escribas da web, canônes desse novo mundo digital. E só eles podem decifrar – e moldar – os parâmetros do ambiente digital. Ficamos reféns dessa nova técnica, do fazer digital. Melhor, ficamos reféns de quem controla essas linguagens, e de suas traduções ao mundano círculo dos meros mortais: busca no Google, email grátis, Orkut, Twitter, MSN, Facebook, Amazon, YouTube, e nunca acaba nem fica pouco. É fácil pensar assim hoje, na nossa condição de submisso, porque já evoluímos a uma etapa em que é quase inimaginável voltar-se ao mundo completamente offline.

A técnica atual cria novos poderosos, novas classes, novos ambientes de circulação. Favorece aos que a dominam e escravizam aos que a renegam. É muito fácil enxergar como nossos níveis de entendimento dessas técnicas, que permeiam toda nossa rede global (sócio-político-economicamente), naturalmente nos recolocam em novas posições de sociabilidade. A pirâmide mudou porque não existem mais degraus, não existe mais topo ou base. A pirâmide virou rede, e a rede é mais forte no ponto mais denso, no ponto que concentra mais conexões.

Já fui criticado por esse tipo de discussão (sobre como a internet molda novos padrões de conhecimento), principalmente porque ela não fala “da real população brasileira, do público da classe C, D e E, de gente verdade”. Bom, tudo passa por um processo top-down, até a água encanada. O que é sopro hoje, amanhã é furacão.

Depois falo das mudanças nas virtualizações de contrato e de linguagem. Em breve, juro.

Rafael Lavor

ROI ou engambelada?

Li um post do Luiz Mastroprieto no Estalo que me chamou atenção. Ele exaltava a estratégia do Departamento de Turismo de Queensland, que anunciou O Melhor Emprego do Mundo, gerando  muito buzz na mídia.

Segundo ele,

Em um momento em que todos anunciantes estão repensando maneiras em maximizar o seu ROI em campanhas publicitárias, esse tipo de iniciativa se prevalece frente aos métodos tradicionais da indústria. Para se ter uma idéia, a campanha teve um investimento de AU$1,7 milhões, mas gerou um retorno de mais de AU$70 milhões em mídia espontânea.

ilha

É engraçado que, na maioria das vezes, as pessoas pensam estar mensurando ROI usando apenas resultados de campanha – como se estes fossem desconectados dos objetivos de negócio. Este é o tipo de perspectiva que gera aberrações como essa: julgar resultados apenas por comparações como esta “investimento de AU$1,7 milhões geraram um retorno de mais de AU$70 milhões em mídia espontânea”.  É a mesma lógica que nos leva a julgar o trabalho de uma assessoria de impresnsa pela simples centimetragem.

Se a campanha é do Departamento de Turismo de Queensland, provavelmente, eles têm objetivos de negócio. Um objetivo da instituição, claramente, não é ter milhões de views na internet. Talvez seja aumentar o número de turistas que viajam para a ilha; talvez seja convencer as empresas aéreas a disponibilizarem mais vôos; ou até conquistar espaço político para a construção de um novo aeroporto. Não sabemos.

Se não sabemos o objetivo, fica claro que não podemos falar de análise de ROI. Julgar campanhas por meio da própria campanha é o tipo de coisa na qual só publicitário acredita. É sofismar – chegar a conclusões falsas por meio de argumentos verdadeiros.

Diego Senise

outro ponto de vista: atitude blasé

Em Fenômeno Urbano, George Simmel fala sobre como a metrópole atua psicológica e sensorialmente nas pessoas.

“Com cada atravessar de rua, com o ritmo e multiplicidade da vida econômica, ocupacional e social, a metrópole faz um contraste profundo com a vida de cidade pequena e a vida rural no que se refere aos fundamentos sensoriais da vida psíquica. A metrópole extrai do homem, enquanto criatura que procede discriminações, uma quantidade de consciência diferente do que a vida rural extrai. Nesta, o ritmo da vida e o conjunto sensorial de imagens mentais flui mais lentamente, de modo mais habitual e uniforme.
(…)
A atitude blasé resulta dos estímulos contrastantes que, em rápidas mudanças, são impostos aos nervos. (…) E se a pessoa permanece no mesmo meio, os nervos não tem tempo para recuperar sua força de reação. Surge assim a incapacidade de reagir a novas sensações com a energia apropriada. Isto constitui aquela atitude blasé que, na verdade, toda criança metropolitana demonstra quando comparada com crianças de meios mais tranqüilos e menos sujeitos a mudanças.”
Diego Senise

Periferia da Comunicação – Daspu

A segunda palestra foi de Flávio Lenz, diretor de comunicação e marketing da Daspu.

Depois do escândalo de sonegação de impostos da DasLu, um amigo de Flávio criou o nome DasPu, trocadilho que remete à grife paulistana. Uma semana após o lançamento oficial, a DasLu enviou uma notificação ameaçando processar os criadores da DasPu. Flávio levou a história para a mídia e, em menos de uma semana, a marca já estava em uma matéria no Fantástico. Posteriormente, a DasLu chegou a convidar a DasPu para ter um stand dentro de sua loja em São Paulo, mas Flávio achou que isso acabaria com a essência e credibilidade de sua marca.

daspu

“Para seduzir as pessoas, fazemos ativismo com humor, não aquele ativismo ‘Prostitutas Unidas Jamais Serão Vencidas!’. Preferimos camisetas com mensagens como “As mulheres perdidas são as mais procuradas.”

Segundo Flávio, o maior engano das pessoas é pensar que as DasPu foi criada para oferecer uma nova profissão (costureira, modelo, estilista etc.) para as prostitutas. Essas pessoas não precisam ser socorridas, salvas do que julgamos ser uma vida sofrida. Temos que parar de pensar alguns grupos a partir de nosso olhar viciado e passar a identificar o valor que eles têm. Não se teria essa idéia de marca tão relevante se as prostitutas fossem consideradas somente um grupo de pessoas marginalizadas.

camiseta-daspu1

Para terminar, Flávio nos deixa um insight sobre gerir negócios:

“As prostitutas trabalham identificando desejos sexuais: o que este cliente quer, como, aonde? É o que tentamos fazer com os nossos clientes para vender cada vez mais roupas da grife.”

Diego Senise  |  Rafael Lavor

Periferia da Comunicação – Super Notícias

Ontem, eu e o Rafa resolvemos ir num evento chamado Periferia da Comunicação, realizado pelo Jornalirismo no Senac. Este post e o próximo mostram o que aconteceu de mais legal por lá. A primeira palestra foi de Lúcia Castro, editora executiva do jornal Super Notícias, de Belo Horizonte.

Super Notícia é um jornal popular em formato tablóide que circula nos arredores de MG e que cresceu 27% no ano passado, contra uma média nacional de 5%.

Lúcia acredita que o Super conseguiu ganhar mercado criando um novo público leitor – pessoas que não costumavam ler e passaram a ter esse hábito. Diferentemente de países europeus, o Brasil tem muita “gordura”  de não-leitores de jornal nas classes baixas para conquistar nos próximos anos.

super-noticias

O jornal não trabalha com sistema de assinatura; só é vendido em bancas e por ambulantes. Quase 80% do publico leitor é da classe B/C. A proposta é ser um jornal didático e mais dirigido à vida do leitor. Economia e política só aparecem no Super quando a notícia é diretamente relacionada ao dia-a-dia do leitor. “No dia que a pessoa quiser uma informação com conteúdo mais denso, ela vai migrar de jornal; vai ler a Folha ou o Estado.”

Além de ser focado em esporte e entretenimento, o Super atua de forma relevante na área de serviços. Para o leitor, o jornal virou uma referência de apoio. As pessoas ligam na redação do Super para contar tudo o que acontece no bairro delas.

“Já encontramos até pessoas desaparecidas. Eles esperam que o Super faça tudo por elas. Tem gente que liga antes para o Super e depois para o bombeiro ou prefeitura. (…) Eles querem ter familiaridade com o jornal. Querem ser reconhecidos e verem suas histórias contadas. É um jeito deles terem certa identificação com a sua comunidade.”

——————————————–

Update: esquecemos de algo importante: desde seu lançamento, o Super traz em sua capa uma mulher semi-nua, apelidada por eles de “A Pelada da Capa”. Considerando que a maioria do público lê o jornal indo para o trabalho, nada como um refresco para os olhos logo pela manhã. Nos finais de semana, para se adequar ao target (um pouco mais de senhoras e famílias), o jornal publica a pelada da capa com um pouco mais de roupa.

Diego Senise | Rafael Lavor

Megapix: a função do Créu

Ontem anoite, confraternizando com a família, as pessoas se revezavam entre a conversa e a zapeada na TV a cabo. De repente, silênciao. Todos de olhos fixos na tela: muitas risadas. Era A Dança do Créu encenada por famosos em cenas defilmes.

Na verdade, este filme não é nada. Nada além de entretenimento. É uma montagem que poderia ter sido feita por uma criança. Mas ele cumpre um papel muito importante que pôde ser constatado rapidamente. Quando o comercial terminou, todo se perguntaram que: “Que canal é esse? Megapix? Legal! Não conhecia. Que mais passa nesse canal?”

Simplesmente isso, o objetivo do filme é fazer o percebessem no meio da imensidão de canais da TV por assinatura. 

Diego Senise

Base da Pirâmide

Inspirado pelo excelente estudo realizado por Marlene Bregman da Leo Burnett sobre a Base da Pirâmide, fui procurar um pouco mais de conteúdo sobre empresas que estão atuando de maneira relevante para estas pessoas que gastam até 2 dólares por dia. 

Muhammad Yunus é um economista ganhador do Prêmio Nobel da Paz pelo fato de ter criado o Grammeen Bank, banco de micro-crédito com foco nas pessoas que estão na Base da Pirâmide na Índia. Neste vídeo, Yunus explica com muita clareza como ele criou uma empresa que “coloca de cabeça para baixo o modelo de negócios de um banco comum”.

Os pontos mais importantes desse “modelo de negócio de cabeça para baixo”, para você que não tem tempo de ouvir a palestra:

O banco emprestas pequenas quantias (desde 0,50 centavos até alguns dólares). Não existe exigência de garantia de pagamento. O banco, simplesmente, confia que as pessoas pagarão. Se não pagam, só perdem o direito de fazer outro empréstimo. Não há punição, processos, prisões. Nada. No fim das contas, a maioria das 7,5 milhões de pessoas com empréstimos pagam o que devem, e o Grameen Bank já moveimenta 500 milhões de dólares. 

Quanto menos dinheiro a pessoa tem, maior a sua prioridade de receber empréstimos do Grameen Bank. Ao contrário de um banco comum, quanto menos garantias materiais de pagamento, mais fácil de conseguir o empréstimo.

Não são as pessoas que procuram o banco para “pedir” dinheiro emoprestado. Os funcionários do banco, semanalmente, vão até as aldeias oferecer pequenos empréstimos às pessoas que necessitam. Além disso, fazem um acompanhamento das famílias que já fizeram o empréstimo.

97% dos empréstimos são feitos para mulheres. A estratégia do banco é focada nelas pois se percebeu que quando o dinheiro entra na família por meio da mulher, há muito mais benefícios do que quando o dinheiro entra pelas mãos do homem.

india1

Programa que transforma pedintes e mendigos em empreendedores. O banco foi conversar com eles: os convenceram a deixar de pedir dinheiro e passar a vender produtos porta-a-porta. Para isso, o banco fez pequenos empréstimos para que os mendigos pudessem comprar seu estoque inicial de balas, doces e comidas que eles passariam a vender. Atualmente, são 100 mil mendigos neste programa. 10 mil deles já pararam definitivamente de mendigar.

– O banco criou uma empresa de telefonia celular. A idéia foi levar os celular até as mulheres pobres das aldeias, dar empréstimos para que elas comprassem os aparelhos. Isso tudo, para que depois, elas passassem a vender o serviço de telefonia para as outras pessoas da aldeia. 

– Todo o lucro é reinvestido nos próprios micro-empréstimos. Para Muhammad Yunus, o dinheiro que vem de uma doação só tem uma “vida”, só uma chance de fazer a diferença. Um business social coloca o dinheiro num ciclo virtuoso.

In that company, nothing come back to you, except the investiment that you made. If you made one million dollars investiment, you can take this one million dollars… over years. And that´s it. That is not why you cerated the company. You created the company to solve the problem.”

 

Diego Senise