Arquivo para maio \12\UTC 2007

O Dia Z… uma reflexão

É engraçado. Em vários momentos me alegrei mais em dar uma notícia triste para pessoas que não sabiam, em perceber sua reação, sentindo-me bem porque fui causa daquela reação, do que me entristeci pelo acontecimento em si. Neste caso, a informação que se detém, mesmo que muito ruim, serve mais para fins próprios que para a difusão da informação e comoção geral.

Parece macabro. Somente um homem sem sentimento nenhum poderia agir assim diriam alguns. Pegue um exemplo qualquer do dia-a-dia. “Enéas morreu!” diz um amigo a você… há um espanto inicial que, servindo como alívio da própria consciência, permite os comentários posteriores – que alegram muito a ambos que conversam sobre a desgraça alheia.

Falta de caráter? Insensibilidade? Não. Na verdade, a morte de uma pessoa com quem eu não mantenho laços afetivos é um evento totalmente externo a mim. Só passa a fazer parte da minha realidade pela comunicação: quando fico sabendo o que aconteceu, ou quando reproduzo a informação. São as únicas duas maneiras pelas quais posso ser afetado por tal acontecimento. Ou seja, sou afetado apenas em meus próprios encontros com o mundo, independentemente da agonia, sofrimento e morte – que são somente fatos comunicáveis para mim.

Só me dei conta disso a poucos dias… mais especificamente, na quinta feira (10 de maio). Nesse dia, ocorreu uma série de acontecimentos na ECA. Além de não termos assistido aula pela manhã por causa da paralisação dos funcionários, fomos expulsos do nosso local de trabalho (ECA Jr.) porque os manifestantes mandaram fechar o prédio. Como se não bastasse, recebemos a notícia de que nossa professora Maria de Lourdes Motter, a Lurdinha, tinha morrido.

Parecia um daqueles dias em que tudo acontece ao mesmo tempo. Tudo o que aconteceu pressupunha um determinado comportamento social, decorrente nas notícias entristecedoras. Mas não foi o que aconteceu.

Transformamos aquilo num “evento” para nós mesmo. Fizemos comentários engraçados, piadas e até apelidamos a data como o Dia Z… em que tudo deu errado. É curioso que me alegraram mais as piadas que envolveram o Dia Z (zica) com meus amigos, do que reflexões melancólicas ou de lamentação sobre a gravidade dos acontecimentos.

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Parentesis: Certamente ainda me alegrarei muito ao contar futuramente meus tempos na USP em que o campus era tomado por manifestantes. E quando contar a história para alguém e vir o sorriso de aprovação no rosto da pessoa, quando vir seu olhar interessado em o que estou falando… isso me alegrará.

E isso não é privilégio meu. Todos tentam maximizar o seu prazer e alegria, independentemente do coletivo. Talvez essa seja uma das grandes alegrias que os grandes ícones de movimentos reivindicatórios têm: falar para multidões e ser reconhecido por ela, dar entrevistas ou, pelo menos, juntar rodas de pessoas em meios sociais para ouvirem o que ele tem a dizer (momentos de prestígio os alegram, assim como a qualquer pessoa).

Isso porque a conquista por benefício por outrem não o afeta senão pelo prestígio; ela não sente o que os outros sentem. A alegria dos outros não me alegra. A alegria coletiva é uma impossibilidade.

Sempre que você ouvir a palavra comunidade, no sentido de família/grupo, pode ter certeza que há uma relação de manipulação e tentativas de influência por meio de ideologia. Não existe grupo, na existe causa coletiva. O que é o coletivo senão a união de partes… partes tão distintas em sua singularidade. Cada um está lá por seu próprio motivo. Alguns para matar trabalho, alguns para comer de graça, alguns para ouvir a música, alguns para observar, alguns para conversar com os amigos, alguns por osmose, alguns por rotina, alguns com medo de serem coagidos como traidores pelo grupo que o envolve… e existem até aqueles que acreditam na causa e pensam que conseguirão mudar algo.

Estávamos lá… comemos os pães dos trabalhadores, tiramos fotos e demos risadas ao ver o doido do microfone monopolizando o discurso público contra o governo; fazendo associações bizarras com fins persuasivos para o público ignorante e falando palavras de ordem que soavam como agressão ao intelecto de um ser minimamente pensante. Apesar disto, consegui me alegrei dançando dentro do carro junto com o pessoal da Jr. na frente do carro de som, ouvindo a música dos manifestantes, e ridicularizando a reivindicação.

Sou menor que alguém por isso? Minha indiferença é a causa da desgraça do mundo? Minha alienação deixa a sociedade ser corroída? Meu conformismo impede a evolução dos mais fracos?

Quem pode fazer juízo de valor se o que me alegra é ridicularizar os exaltados políticos? Se acredito que não há felicidade na vida pública… se acredito que a felicidade não está numa vida servil – que se serve a um objetivo maior, que é pautada por algo que ainda não é, e que eu nem sei se me alegraria quando eu a alcançasse?

Se todos os problemas sociais, econômicos e morais do mundo fossem resolvidos; se houvesse justiça plena para todos os meus problemas existenciais não estariam resolvidos. Se os gritos contra canalhas do governo fossem garantia de futura alegria perene, que eu conseguisse fugir no maldito pêndulo que nos leva da frustração ao tédio, certamente levantaria minha voz contra qualquer um… jogaria pedras na polícia, transformaria a Av. Paulista em cenário de guerra e lutaria. Lutaria por mim mesmo.

O fato é que dificilmente nos comportamos da maneira que se é esperado pela sociedade. Mas não me culpo. Minha realidade é só para mim. Diante da morte: comover-se. Diante do movimento estudantil em grave: apoio incondicional. Mas não há sentimentos compartilhados, vontade de todos nem consciência coletiva. O que há é a individualidade da vida de cada um.

Perspectiva egoísta? Talvez. Só sei que coisas da vida são muito complexas para serem generalizadas por estas convenções sociais.

Contra os que são do contra.

Alguém que clame pelo primeiro atirador de pedra aquele que tem algo contra a publicidade verá chover pedras. Com motivos óbvios, razões evidentes e argumentos tidos como incontestáveis sempre em mãos, todos (de A a Z) sempre têm algo a dizer quando são perguntados “o que você acha da publicidade?”. E por que diabos a publicidade é sempre tão fomentada pela inconformidade das pessoas?

Resposta pra essa questão eu nem formularia, muito menos defenderia a publicidade com o mesmo vigor que a condenam. Venho aqui me por contra os que são contra. Não somente contra-argumentar, mas discutir. Afinal, sempre me faltam argumentos alhures realmente fundamentados que me convençam de que a publicidade nada mais é do que uma etapa estratégica de um fluxo econômico chamado capitalismo.

Antes de tecer críticas aos críticos, faço um pedido: os publicitários que tenham convicções contrárias ao capitalismo, por favor, não desperdicem seu tempo entrando em contradições próprias. E, só para constar, as maiores potências econômicas do mundo, hoje, são ameaçadas por antigos Estados socialistas que, veja só, resolveram adotar o capitalismo. Tem como ser mais claro?

A publicidade vende mentiras. Hum… eu acho muito engraçado isso. Ainda mais quando eu escuto de pessoas que trabalham, estudam ou pesquisam a comunicação. Quando se fala “a publicidade vende”, tudo bem. É até pleonasmo. Mas, preste atenção, o que é mentira? Uma outra versão da verdade? Algo que não é verdadeiro? Vamos parar por aqui. A verdade é uma construção consentida da realidade. O que é verdade pra uns não é para outros. Tudo se pauta em o quanto um determinado ponto-de-vista é disseminado ou não, afinal, verdades são pontos-de-vista que possuem maior credibilidade que outros. A fenomenologia da comunicação prova que ninguém nunca poderá ter o mesmo ponto-de-vista, pois ninguém nunca poderá ocupar o mesmo espaço num mesmo momento e viver a mesma experiência. Logo, para viver em sociedade, as pessoas convencionam valores, esteriótipos e códigos morais que facilitam a perenidade da sociedade, criando, assim, as “verdades” – signos ideologicamente dominantes inseridos no repertório de significados de um indivíduo. Portanto, como é que alguém pode criticar algo por ser uma representação do real? Como alguém pode me dizer o que é mentira ou verdade? Quem disse que publicidade não pode vender verdades? E olha que assunto não acaba por aí.

A publicidade manipula e persuade. O preceito aplicado ao conceito. Mas que merda de argumento, né? A persuasão e a manipulação fazem parte do caráter humano. O que você faz ao se comunicar? Você tenta impor suas idéias e seus valores ao receptor. Querendo ou não, você só pode enunciar aquilo que faz parte do seu campo ideológico, e partindo do pressuposto de que todo signo é ideológico, você sempre estará num embate de mão-dupla com os valores do receptor, que também é outro enunciador. As marcas (identidades iconográficas das empresas, ou seja, suas personificações) simplesmente se comunicam com seu público-alvo, com o mesmo intuito informativo e educativo que um pai se comunica com seu filho, ou da mesma maneira que você fala com seu amigo. Por fim, partindo de um postulado filosófico pós-moderno, uma pessoa só é feliz quando aplica ao máximo a sua potência, os seus desejos, as suas idéias, ou seja, quando um indíviduo convence os outros a partilharem de sua própria felicidade. O mesmo vale para as marcas! Elas só querem que você partilhe dos seus mesmos ideais e valores, se valendo do mesmo discurso persuasivo que uma pessoa utiliza para conversar com seus amigos, familiares e conhecidos. Culpar a publicidade por ser persuasiva e manipulador é atirar no próprio pé. Aliás, de onde vem a idéia de que manipular e persuadir é algo ruim, ou deplorável? Sinceramente…

Poderia continuar escrevendo, mas acho que já me fiz claro. Eu gosto mesmo é de discutir, por isso abro espaço para isso.

Como uma provocação final, concluo que, no fundo, os argumentos de quem é contra a publicidade, na verdade, nada mais são do que hipocrisias veladas pelo senso-comum. E tenho dito.

Rafael Lavor

Tele-tela…

A classificação indicativa de idade são aqueles números coloridos que aparecem no canto da tela antes do início de qualquer programação. É uma forma de avisar é conteúdo é inadequado a pessoas de determinadas idade.

Ainda existem poucas pesquisas sobre o assunto. Algumas indicam que poderia haver um “efeito boomerang”. Ou seja, as indicações de idade e teor do conteúdo (violência e sexo) tornariam o conteúdo mais atraente para crianças e adolescentes.

Sobre este assunto, uma campanha da Rede Globo me chamou atenção nas últimas semanas.

COMERCIAL

É inegável que a Globo usou uma linguagem visual e textual muito persuasiva, e alinhada com seus interesses. Depois que os pais estão ficam repetidamente tirando as mãos da frente dos olhos das crianças, surge um sorriso aliviado, feliz.

É importante ressaltar que a Globo não está infringindo nenhuma lei. Segundo o Ministério da Justiça, os pais são os responsáveis pela deliberação sobre o que seus filhos podem ou não ver. Usa-se o conceito de co-responsabilidade para designar o papel da família na escolha da programação que as crianças assistem.

É interessante notar como um mesmo argumento verdadeiro e legal pode ser transmitido de diversas maneiras. A propaganda poderia mostrar pais decidindo o que os filhos podem ver tampando a visão deles, em vez de tirar as mãos da frente. A idéia de responsabilidade dos pais continua presente, continua-se cumprindo a decisão judicial, porém a emissora perderia a oportunidade de transmitir uma mensagem que a beneficia.

A campanha, claramente, visa influencia o comportamento dos pais, no sentido de desmerecer a indicação de idade, tornando-a uma mera formalidade.

Nesta propaganda, a Globo utiliza um processo característico de campanhas ideológicas. Os interesses contidos na ideologia são transferidos e atribuídos diretamente aos receptores. Como os critérios de escolha da programação que as crianças assistirão estão nas mãos dos pais, a emissora se exime de qualquer responsabilidade sobre as conseqüências aquele conteúdo tem sobre o público infantil.

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O slogan final “Cidadania: A gente se vê por aqui” é de extrema importância. Passa a idéia de neutralidade ideológica (isenção de interesses) da propaganda. Deste modo, a questão da conscientização pela cidadania legitima o discurso, que ganha mais credibilidade.

Sem deslizar em critérios éticos, a estratégia utilizada pela Globo foi muito inteligente e oportuna. Aproveitou-se de uma decisão judicial para lançar uma boa campanha ideológica de transferência de responsabilidade e valores. Além de tudo, esta campanha é bem recebida pelos pais e pela sociedade, pois valoriza a instituição da família.

Valeu pela ajuda, Leleba.

Diego Senise

Hoje é Zeca-feira?

“Zeca-feira é uma homenagem ao consumidor de Brahma, que precisa quebrar a rotina para recarregar as baterias e continuar seguindo em frente”.

Foi assim que o gerente de marketing da marca, Bruno Consentino, definiu a Zeca-feira.

A intenção é clara: a Brahma está tentando criar um novo hábito de consumo – um happy-hour no meio da semana. E para isso usa as relações mais acertadas: o merecido relaxamento após meia semana de trabalho duro e a sua relação com os jogos de futebol transmitidos nas quartas.

A idéia estratégica da campanha foi excelente. Implementar na publicidade algo que transcenda os 30´´ e tente modificar o comportamento social das pessoas é sempre louvável. Tentar ocupar um maior espaço emocional (e não somente prático) na vida das pessoas é o que a maioria das marcas estão procurando atualmente.

Até aí, tudo bem. Então, qual é o problema?

O problema é que a execuação deixou muito a desejar com relação à idéia. Para seguir a linha de campanhas anteriores protagonizadas por Zeca Pagodinho, os criativos da África fizeram a associação mais óbvia: trocar “quarta” por “Zeca” e chegaram à tentativa tosca de neologismo – a Zeca-feira.

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OK. Pouco importa se o nome é bonito. O que realmente importa é como isso afeta a vida das pessoas. Me parece óbvio que esta expressão não vai pegar, não vai cair na boca do povo. Simplesmente, porque ninguém está disposto a dizer “vamos tomar uma cerveja, hoje é Zeca-Feira”. Ninguém quer pagar um pau pro Zeca Pagodinho toda vez que quiser tomar uma cervejinha no meio da semana. Nem eu mesmo, que adoro seus sambas, nunca falaria isso.

A Brahma perdeu uma ótima chance ao utilizar (com idolatria) o nome de um cara que nem tem tanta identificação com o público. Me parece que poderiam ter seguido a mesma idéia, assumindo para a campanha outros atributos que o Zeca e o samba representam: a malandragem, o jeitinho brasileiro ou algo de engraçado do comportamento nos bares. Isso daria um caráter mais interessante para a campanha porque cada pessoa, ou grupo, teria um motivo, uma piada específica ou uma expressão diferente que os estimulasse a beber na quarta-feira.

É fácil lembrar de uma campanha que fez sucesso no meio social e que passou a fazer parte da vida das pessoas. A própria Brahma, com a campanha º 1. A marca “se apropriou” do típico gesto de repetido em bares de levantar o indicador para chamar o garçom. Os clientes também podiam usar mãos gigantes com a marca da Brahma para chamar o garçom nos bares. Todos se lembram do sucesso da nº 1.

Esta campanha não chegou a mudar o hábito das pessoas, apenas fez uma simples associação da marca com o gesto.

Diego Senise