O Dia Z… uma reflexão

É engraçado. Em vários momentos me alegrei mais em dar uma notícia triste para pessoas que não sabiam, em perceber sua reação, sentindo-me bem porque fui causa daquela reação, do que me entristeci pelo acontecimento em si. Nestes casos, a informação que se detém, mesmo que muito ruim, serve mais para fins próprios que para a difusão da informação ou comoção geral.

Parece macabro. Somente um homem sem sentimento nenhum poderia agir assim diriam alguns. Pegue um exemplo qualquer do dia-a-dia. “Enéas morreu!” diz um amigo a você… há um espanto inicial que, servindo apenas como alívio da própria consciência, permite os comentários posteriores – que alegram muito a ambos que conversam sobre a desgraça alheia.

Falta de caráter? Insensibilidade? Não. Na verdade, a morte de uma pessoa com quem eu não mantenho laços afetivos é um evento totalmente externo a mim. Só passa a fazer parte da minha realidade pela comunicação: quando fico sabendo o que aconteceu, ou quando reproduzo a informação. São as únicas duas maneiras pelas quais posso ser afetado por tal acontecimento. Ou seja, sou afetado apenas em meus próprios encontros com o mundo, independentemente da agonia, sofrimento e morte – que são somente fatos comunicáveis para mim.

Só me dei conta disso a poucos dias… mais especificamente, na quinta feira (10 de maio). Nesse dia, ocorreu uma série de acontecimentos na ECA. Além de não termos assistido aula pela manhã por causa da paralisação dos funcionários, fomos expulsos do nosso local de trabalho (ECA Jr.) porque os manifestantes mandaram fechar o prédio. Como se não bastasse, recebemos a notícia de que nossa professora Maria de Lourdes Motter, a Lurdinha, tinha morrido.

Parecia um daqueles dias em que tudo acontece ao mesmo tempo. E tudo o que aconteceu pressupunha um determinado comportamento social, decorrente das notícias trágicas. Mas não foi o que aconteceu.

Transformamos aquilo num “evento” para nós mesmo. Fizemos comentários engraçados, piadas e até apelidamos a data como o Dia Z… dia em que tudo deu errado. É curioso que me alegraram mais as piadas que envolveram o Dia Z (de zica) com meus amigos, do que reflexões melancólicas ou de lamentação sobre a gravidade dos acontecimentos.

dia-z.jpg

Sobre a as manifestações na USP e a invasão da reitoria…

Minha impressão sobre tudo aquilo é que não existe um grupo ou uma causa coletiva em que todos acreditam. O que é o coletivo senão a união de partes… partes tão distintas em sua singularidade. Cada um estava lá por seu próprio motivo. Alguns para matar trabalho, alguns para comer de graça, alguns para ouvir a música, alguns para observar, alguns para conversar com os amigos, alguns por osmose, alguns por rotina, alguns com medo de serem coagidos como traidores pelo grupo que o envolve… e existem até aqueles que acreditam na causa e pensam que conseguirão mudar algo.

Naquele dia de más notícias, fomos pra reitoria. Comemos os pães dos trabalhadores, tiramos fotos e demos risadas ao ver o doido do microfone monopolizando o discurso público contra o governo; fazendo associações bizarras com fins persuasivos para o público ignorante e falando palavras de ordem que soavam como agressão ao intelecto de um ser minimamente pensante. Apesar disto, conseguimos nos divertir na frente do carro de som, ouvindo a música dos manifestantes e ridicularizando a reivindicação.

Sou pior que alguém por isso? Minha indiferença é a causa da desgraça do mundo? Minha alienação deixa a sociedade ser corroída? Meu conformismo impede a evolução dos mais fracos?

Quem pode fazer juízo de valor se o que me alegra é ironizar os exaltados políticos? Se os gritos contra canalhas do governo fossem garantia futura de alegria pessoal (e não por uma classe), certamente levantaria minha voz contra qualquer um… jogaria pedras na polícia, transformaria a USP em cenário de guerra e lutaria. Lutaria por mim mesmo.

O fato é que dificilmente nos comportamos da maneira que se é esperado pela sociedade. Mas não me culpo. Minha realidade é só para mim. Diante da morte: comover-se. Diante do movimento estudantil em greve: apoio incondicional. Mas não há sentimentos compartilhados, vontade de todos nem consciência coletiva. O que há é a individualidade da vida de cada um.

Perspectiva egoísta? Talvez. Só sei que coisas são muito complexas para serem generalizadas por estas convenções de comportamento social.

Diego Senise

3 Responses to “O Dia Z… uma reflexão”


  1. 1 Marcelina julho 25, 2007 às 2:33 am

    É meu caro, como diria o Clóvis, cada um é uma grande ilha de desafetos. Isso significa: temos motivos pessoais (e muitas vezes egoístas) para lutar pelos nossos próprios ideais.

  2. 2 Fernanda Diniz julho 25, 2007 às 2:40 am

    Muito bom o flog,Di!Parabéns!
    Vou entrar sempre,vê se atualiza hein!hahahahha
    Concordo com seu texto,viu!Fiquei pensando sobre isso depois do acidente da TAM,achei que eu era fria demais,mas pensando no que você escreveu estou melhor,hahahaha!

    beijos

  3. 3 kalup agosto 6, 2007 às 1:30 am

    Encare essas desgraças todas como mais um assunto em nossas pautas. Uma vez que você detém a informação – como você sabia da Lourdinha – você detém o poder. É por isso que nos sobe a cabeça e o acontecimento passa a ser só mais um fato desvinculado de significado para ti, mas que uma vez transmitido lhe passa crédito.

    Completamente egoísta, mas de nossa natureza. Senão, de que serviria a morte que não para eternizarmos nosso nome, eternizando nossa existência. Claro que nem todos conseguem.
    Se quando eu morrer falarem de mim por todo esse tempo, eu já vou estar feliz…


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