Comunicação para adultos

Divertidas, sarcásticas, muito bem-humoradas e fora do politicamente correto, algumas campanhas de mídias televisivas têm me chamado a atenção. Canais pagos como Fox (Não Perturbe), Sony (Pi) e Cartoon Network (Adult Swim), em seus horários dedicados ao público adulto, estão utilizando uma linha de comunicação bem interessante: vamos rir… de nós mesmos!

Adult Swim

Voltadas para o público adulto, de perfil psicográfico bem variado, estas faixas na programação destes canais possuem conteúdo que mistura obcenidades, violência e muito humor (mas não é qualquer humor pastelão-meia-boca). Obviamente, não serei moralista para criticar o conteúdo em si. Isso cabe ao lado “sem-graça” da sociedade. O que quero destacar desta programação é como ela é comunicada: todo o teor do conteúdo dos programas permeia as vinhetas e os comerciais dos intervalos, mantendo uma estrutura linear tanto da linguagem como da mensagem nestes horários destes canais.

O melhor disso tudo é o efeito que isso causa pra audiência. Afinal, você não vai ser interrompido (pelo menos, não completamente) por anúncios chatos e distoantes com o clima humorístico semi-anárquico da programação. As vinhetinhas engraçadas acabam dando um suporte pra programação, funcionando como rápidos estímulos que te fazem rir facilmente, enquanto você aguarda o recomeço do seu programa. A grande sacada está em tentar manter a bunda da audiência no sofá e o dedo dela longe do controle, mesmo durante os comerciais – como me disse o Diego (camarada aqui do Logopéia): “você até fica esperando passar as vinhetinhas antes de pensar em mudar de canal“.

Family Guy

Outro fator muito coerente é o “como”. Como assim vinhetas engraçadinhas? Simples. Eles fazem auto-piadas. Usam o próprio formato do canal de televisão como motivo de piadas. Ou seja, desmitificam a solidez achatada de um canal a cabo, utilizando-se de uma linguagem conivente com a da programação, e passam escrachar elementos próprios do cotidiano do funcionamento do interior de um canal de televisão, como cartas da audiência, classificações de censura, os próprios comerciais, etc. Neste caso, nada melhor do que debrear a mensagem, ou seja, deixar expostas as etapas da composição de um anúncio publicitário pra todos tirarem sarro delas.

E ainda temos de pensar de que estamos tratando de uma mídia-anunciante falando dela mesma. Obviamente, o efeito persuasivo aqui fica muito ampliado, já que pelo simples fato de assistir a mídia, você já está “comprando-a”. Além de tudo, o efeito trabalhado junto com o galera do sofá não é simplesmente fazê-los rir, mas tomar como enraizado um tipo de atitude/comportamento que associe clara e diretamente os programas aos seus públicos. O que, na minha opinião, funciona muito bem.

Este tipo de posicionamento é bem ousado, eu diria. Poucos anunciantes têm culhão pra essas coisas. Anunciar “atitude” é moleza. Ter atitude é outra coisa bem diferente, e funciona muito melhor.

Rafael Lavor

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