Orgulho de ser consumidor

Entrar no mundo publicitário de corpo e alma pode causar efeitos colaterais no lado consumidor do indivíduo. Quando estudamos aspectos do consumo relacionados a identidade, arquétipos, estereótipos, valores sociais, sentimentos e experiência, interiorizamos um espírito crítico que acaba contaminando nossos instintos e impulsos consumistas. Passamos a entender os mecanismos e a linguagem por trás de toda perfumaria das ações de marketing e, conseqüentemente, de publicidade.

Seria natural concluir que a conseqüência disso tudo deságua na desilusão e no desencantamento pelas coisas circulantes no mundo consumista. Entretanto, e obviamente, nada pode ser tão purista assim, e não é dessa maneira que a roda do capitalismo gira. Atento para esta questão devido a um sentimento raro que me abateu por esses dias: o desejo consumista.

Fiat

Estava acompanhando desde o início a campanha de lançamento do Fiat Punto, assim como qualquer publicitário viciado em informação e em blogs. Apesar da indiferença inicial de costume, comecei a prestar mais atenção no meu envolvimento com a campanha: teasers em mobiliário urbano dentro da USP, comerciais 30″ e 60″ bem produzidos rolando nos programas que assisto, patrocínio em sessões de filmes na TV paga, banners na página inicial do meu e-mail, anúncios página dupla na Rolling Stone, mensagens no meu celular, e até uma restilização da logomarca Fiat que eu achei bem legal. Um plano de mídia impecável seguindo a risca o conceito bolado para atingir o público-alvo do produto: Eu.

E, por causa de um trabalho que eu estava fazendo para uma marca concorrente, até test-drive eu fiz no Punto. No final das contas, pensei “esse é o carro que eu quero“. Não que eu vá comprá-lo – porque o preço é único P do composto de marketing que falhou comigo -, mas é interessante notar o envolvimento que comunicação me trouxe, de maneira 360 realmente funcional e emocional, com o conceito da campanha ancorando todos os valores que eu partilho com a marca: independência, individualidade, conquista, sofisticação, cultura pop e jovem, entre outros. Praticamente, um caso de amor!

Se a campanha está se traduzindo em vendas, eu não sei. Mas fico muito orgulhoso por saber que ainda me encanto por produtos ordinários e corriqueiros, grupo que (no meu caso) não inclui iPods, Macs, roupas da Adidas e os novos celulares da Nokia. É quase a mesma sensação de descobrir um novo amigo dentre os meus conhecidos anônimos. Isso prova, pelo menos para mim, que meu ofício ainda tem essência – não falo da criatividade, mas sim do encantamento certeiro causado no público, aquele suspiro desejante provocado no consumidor que olha para o produto, aquele afeto extravasado de tesão consumista.

Que delícia.

Rafael Lavor

3 Responses to “Orgulho de ser consumidor”


  1. 1 Camila KS outubro 10, 2007 às 2:58 am

    Queridos,

    Primeiramente parabéns pelo blog!
    Confesso que quando vi o título do post, tive minha expectativa completamente invertida ao longo do texto. Pensei em algo do tipo: Ok, agora que somos profissionais na comunicação, como isso reflete em nosso lado consumidor (pensando em todos os aspectos que podem ser consumidos em uma marca)?
    Concordo com algumas coisas, descordo de outras, mas gostaria de atentar para um aspecto: não falem só de publicidade e propaganda. Destes que falam disso, há muitos por aí. Vamos lembrar que não só disso se faz uma boa comunicação…

    Quando vi o titulo do post, lembrei de uma experiencia que tive com a marca Dove. Nada de real beleza. Foi um desodorante aerosol que comprei, que apresentou defeito – ficou mais leve, e o jato não estava seco. Eu, como “publicitária” e consumidora, liguei para o 0800. Atendimento perfeito, do início ao fim: registraram a reclamação, marcaram um horário para retirar o produto irregular, deixaram outro no lugar (e ainda veio uma sacolinha da Unilever), depois me ligaram dizendo o que havia dado errado. Isso me faz pensar Dove como uma marca completa – ou pelo menos não é mais uma daquelas que não resistem a um contato mais próximo, sem uma TV entre empresa e consumidor.

    Bjs

  2. 2 Camila KS outubro 10, 2007 às 2:59 am

    ueridos,

    Primeiramente parabéns pelo blog!
    Confesso que quando vi o título do post, tive minha expectativa completamente invertida ao longo do texto. Pensei em algo do tipo: Ok, agora que somos profissionais na comunicação, como isso reflete em nosso lado consumidor (pensando em todos os aspectos que podem ser consumidos em uma marca)?
    Concordo com algumas coisas, descordo de outras, mas gostaria de atentar para um aspecto: não falem só de publicidade e propaganda. Destes que falam disso, há muitos por aí. Vamos lembrar que não só disso se faz uma boa comunicação…

    Quando vi o titulo do post, lembrei de uma experiencia que tive com a marca Dove. Nada de real beleza. Foi um desodorante aerosol que comprei, que apresentou defeito – ficou mais leve, e o jato não estava seco. Eu, como “publicitária” e consumidora, liguei para o 0800. Atendimento perfeito, do início ao fim: registraram a reclamação, marcaram um horário para retirar o produto irregular, deixaram outro no lugar (e ainda veio uma sacolinha da Unilever), depois me ligaram dizendo o que havia dado errado. Isso me faz pensar Dove como uma marca completa – ou pelo menos não é mais uma daquelas que não resistem a um contato mais próximo, sem uma TV entre empresa e consumidor.

    Bjs

  3. 3 camila ks outubro 10, 2007 às 1:48 pm

    Queridos,

    Primeiramente parabéns pelo blog!

    Confesso que quando vi o título do post, tive minha expectativa completamente invertida ao longo do texto. Pensei em algo do tipo: Ok, agora que somos profissionais na comunicação, como isso reflete em nosso lado consumidor (pensando em todos os aspectos que podem ser consumidos em uma marca)?

    Quando vi o titulo do post, lembrei de uma experiencia que tive com a marca Dove. Nada de real beleza ou campanha na TV (afinal não é só disso que sobrevive uma marca). Foi um desodorante aerosol que comprei, que apresentou defeito – ficou mais leve, e o jato não estava seco. Eu, como “publicitária” e consumidora, liguei para o 0800. Atendimento perfeito, do início ao fim: registraram a reclamação, marcaram um horário para retirar o produto irregular, deixaram outro no lugar (e ainda veio uma sacolinha da Unilever), depois me ligaram dizendo o que havia dado errado. Isso me faz pensar Dove como uma marca completa – ou pelo menos não é mais uma daquelas que não resistem a um contato mais próximo, sem uma TV entre empresa e consumidor.

    Bjs Cá


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