Aprendiz de picaretagem

Me deu vontade de escrever sobre isso quando, semana passada, eu percebi como a academica é entristecedora. Estava fazendo um trabalho que precisava ter 5 páginas. O problema é que, em 4 parágrafos, eu já tinha passado a única boa idéia e análise que merecia ser escrita. Porém, há um imperativo tosco que diz que um trabalho universitário não pode ter 4 parágrafos. Seria uma absurdo acaêmico. Daí, percebemos onde começa a picaretagem institucionalizada – aquela que todo mundo pratica e que é considerada normal.

Escrever pensando em ganhar linhas é só uma entre as diversas picaretagens valorizadas no meio acadêmico. Há outras como usar palavras difíceis para dizer o óbvio, escrever um introdução e uma conclusão só pra ganhar páginas, escrever objetivos ilusórios para um trabalho cujo único objetivo é a boa nota, colocar citações aleatórias, escrever parágrafos vazios com palavras coringa como pós-modernidade, globalização, paradigma etc. Quem nunca fez isso? Quem se orgulha disso, ou acha que isso contribui para sua formação?

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É engraçado… eles dizem que estão nos preparando para o mercado. Mas, no mercado ou em qualquer outra relação social, o que mais precisamos é de simplicidade. Simplicidade para passar uma idéia com poucas palavras ou apenas com uma imagem, para que o outro entenda a mensagem e não perca tempo com enrolação.

A verdade é que, já no primeiro ano, percebemos que é muito fácil aderir ao sistema da picaretagem, no qual você engambela o professor e ele finge que não percebe, e vice-versa. Esse é o principal fator que nos faz ir pra aula preocupados só pra assinar, fazer trabalhos picaretas etc. Simplesmente, nos tornamos os melhores aprendizes de picareta que poderiam existir – e, as vezes, até superamos nossos mestres – a maioria dos professores ecanos.

É triste… na dita melhor universidade do país, poucos professores (e alunos) se salvam desta realidade do academicismo-pelo-academicismo e da picaretagem.

Diego Senise, mais um aprendiz de picareta da ECA.

11 Responses to “Aprendiz de picaretagem”


  1. 1 Felipe Senise outubro 9, 2007 às 6:44 pm

    Celente reflexão.
    Número de páginas pressupõe maior aprofundamento
    mas isso não é uma espécie de simplismo?
    paradoxo
    ora, talvez em 5 páginas consigamos resolvê-lo
    ou quem sabe em 5 parágrafos como você, ó filho da academia.

  2. 2 Dragoni outubro 10, 2007 às 1:47 am

    Bem, isso com certeza acontece, e não tem como negar. Mas eu não sei se podemos tomar isso como uma regra geral: assim como tem gente que escreve cinco páginas só pra encher linguiça, tem vezes em que 5 páginas são, realmente, o mínimo pra se desenvolver um assunto. Já me ocorreram as duas coisas, e eu acho complicado aplicarmos tudo à uma regra só.

    O papel da universidade não é só preparar pro mercado: ele serve pra entendermos o mundo em que vivemos, serve pra pensarmos melhor (como o Clóvis adora dizer), constriur repértório, entrarmos em contato com conhecimentos diversos. Claro que a universidade não é o único meio em que podemos alcançar tais propósitos, mas com certeza é um facilitador.

    E cara, se o professor for picareta você pode reclamar (claro que nem sempre funciona hehe), mas se a culpa for sua, não reclame que sua formação tá defasada! Palavras de um azeitão convicto!

  3. 3 Dragoni outubro 10, 2007 às 1:49 am

    E consciente
    uhauha

  4. 4 swan outubro 10, 2007 às 2:14 am

    academicismo-pelo-academicismo foi uma palavra coringa?
    Não acho que mercado seja parâmetro para falar sobre academia.

  5. 5 swan outubro 10, 2007 às 2:21 am

    ou melhor: único parâmetro

  6. 6 Mariana outubro 10, 2007 às 3:41 am

    Olha, já me angustiei diante de 5 longas páginas por escrever, já usei todas as sublimes técnicas de encheção de linguiça, já transformei uma frase em um parágrafo sem acrescentar nada ao conteúdo, já usei espaçamento 1,6 e verdana no lugar de times. Tudo isso para fazer com que as linhas dificilmente paridas alcançassem as malditas 5 páginas.

    Só q tem uma coisa. Cinco páginas são mesmo um espaço tão exagerado para escrever sobre qualquer assunto minimamente complexo? Em normas da ABNT, ainda por cima? Eu concordo que muitas vezes os formatos da academia deveriam ser repensados e inovados, mas acho que se a nossa cabeça não consegue produzir conteúdo suficiente pra preencher 5 páginas, o problema não está no branco do papel, e sim no branco da nossa formação.

    Será que lemos o suficiente sobre o assunto, ou só (quase) o minimamente necessário (ou obrigatório)? Será que discutimos o suficiente? Ou estamos, como sempre, tentando vomitar alguma coisa no intervalo entre o estágio e a aula?

    A universidade deveria servir pra nos preparar para a vida, e eu prefiro acreditar que a vida é muito mais do que o mercado.

    E eu já aprendi, tanto da universidade quanto da vida, que uma relação picareta pressupõe muita cumplicidade.

  7. 7 Andréa outubro 10, 2007 às 11:20 pm

    “eles dizem que estão nos preparando para o mercado”

    Não apenas para o mercado meu caro..nunca se esqueça disso.
    Se simplicidade fosse a ordem no meio acadêmico a redação da fuvest seria um paper.
    E pelo amor de deus não confunda muitas páginas com enrolação, pode ser profundidade também dependendo do escritor.
    No meio acadêmico de verdade você terá que embasar cada conceito abordado no seu trabalho de mais de quatro parágrafos.
    Profundidade que gera número de páginas, e dai a cultura de número de páginas.

    O problema é que a galera acaba embromando porque o aluno ecano não sabe e não tem saco de embasar seu trabalho ‘porque estou cansado e OPA tem “tropa de elite” passando no cinema hoje à noite’.
    Por exemplo, se eu for citar a palavra pós-modernidade em qualquer trabalho decente vou ter que dizer que raios de definição estou usando que veio de onde e porquê ela é pertinente. Vai dizer que alguém faz isso? Duvido até que a maioria aqui consiga lembrar qual era a problemática da pós-modernidade, o que é um paradigma, os tipos de dialéticas. E olha que texto sobre isso no xerox não faltou.

    A galera não embasa, não procura, não quer…usa qualquer ideia genérica dando um foda-se pra todas as teorias da comunicação porque ele acha que não presta pra nada, que é encher o bucho do seu maravilhoso pensamento e ainda se acha esperto.
    Ai vê que o suuuuuper pensamento extremamente pesquisado em uma tardezinha de domingo dele rende uma página e tasca citações ao acaso que achou no google sem nem saber se aquele autor realmente falava aquilo. Isso sim é encher o bucho.
    Ai cansado ele olha, xinga a má formação dele, amaldiçoa as regras da ABNT porque o times é 12 e não 16.

    Temos falhas de formação e isso afeta? Temos, mas se a informação não chega até você você vai até a informação.
    Engraçado que na ECA todo mundo se vira pra tapar o buraco de conhecimentos mercadológicos, mas do acadêmico dá preguicite “já que nem vai fazer diferença no meu futuro profissional”.

    Fica pra quem quiser uma dica chamada “Scielo” e Biblioteca.
    Eles não cobram nada pra fazer a carteirinha.
    E livros sem figuras, com mais de 50 anos e sem piadinhas geniais não mordem.
    No máximo beliscam.

  8. 8 Bárbara outubro 11, 2007 às 1:58 am

    Teoria e desenvolvimento de raciocínio não é picaretagem institucionalizada, se você consegue desenvolver suas idéias em quatro parágrafos talvez elas fiquem claras e coerentes pra você mas e pros outros?
    Se tudo devesse primar pela simplicidade,se nós nos contentássemos em começar um trabalho terminando ele com quatro parágrafos nós talvez nem teríamos espaço e com certeza não nos forçaríamos a ir além do óbvio.
    Não pensariamos sobre coisas que num primeiro momento nem haviamos imaginado e que o contentamento de quatro parágrafos poda. O desenvolvimento das idéias precisa de tempo, raciocínio, argumentação…e isso não se consegue sempre com nitidez, a não ser que seja um gênio.
    Talvez seja difícil sim escrever 5 páginas sobre algo que não se conhece ou não se goste muito, mas isso vai te forçar a racionalizar mais sobre aquilo.
    E palavras dificeis? Bom…Expressar idéias e comunicar-se de uma maneira ideal é difícil, a linguagem vem pra cumprir a missão de nos dar suporte, agora, se você acha q o cara fala dificil é uma questão de repertório. Talvez uma criança ou um analfabeto também ache que você fale difícil!
    Acho que essa generalização é preconceituosa, ta jogando na lata do lixo qualquer contribuição que a academia possa dar.
    Parece aquela coisa de aluno de colégio “Pra que eu vou usar isso na minha vida?”
    Muita coisa a gente nem lembra mais, mas tudo aquilo serviu pra formar a pessoa que você é hoje, são processos. Você pode não lembrar do que você aprendeu, mas naquele momento aquele ensinamento cumpriu o papel de fazer você começar a questionar as coisas, ou abstrair mais seu raciocínio, ou seja lá o que for que hoje você nem se liga como surgiu dentro de você.

  9. 9 Olé outubro 11, 2007 às 3:08 am

    Adorei os comentários do Dragoni, Swan, Marina. O da Andrea tem uma ressalva: Tropa de Elite é perfeito para o exemplo. Assista a filmes sim, principalmente estes que mostram como o sistema alimenta o próprio sistema. O nosso “jeitiho brasileiro” é uma merda!

  10. 10 Luiz Yassuda outubro 11, 2007 às 3:30 am

    Acho que temos que tomar um cuidado:
    Não confundir o que é simples e o que é simplista.

    Eu acho que você tentar abordar o lado deficitário da academia em relação ao mercado algo minimamente justo, desde que encaremos que o mercado tem um défict de massa encefálica na maioria dos departamentos (seria falta da academia ou excesso de academia, aquela de malhar?) e que não se atribua dois pesos e duas medidas para a mesma questão: me diga, com sinceridade, se você entregaria uma ANÁLISE de 4 linhas para o seu chefe?


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