Arquivo para abril \16\UTC 2008

Paródia de Manuel Bandeira

Pneumotórax

Manuel Bandeira

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.

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— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Terceiro Mandato

Diego Senise

Mensalão, sangue-sugas, cartões corporativos e correios.
O presidente que poderia ter sido e que não foi.
Maaais poder, maaais poder, maaais poder…

Mandou chamar o companheiro Dirceu:
– Conte até dez.
– um, dois, três…
— Respire.

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– O senhor tem uma obsessão pelo governo que o leva à corrupção e à conivência.
– Então companheiro, não é possível tentar um terceiro mandato?
– Não, a única coisa a fazer é esperar 2014.

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Aprendizados sobre etnografia no planejamento

Há alguns dias, recebemos na CO.R a visita da Marcela Reynolds, da B-curious. Ela deu uma palestra para nós sobre etnografia e bateu um papo com todo o pessoal da agência. Nesse texto, trago alguns dos aprendizados daquele dia.

Etnografia é a observação de pessoas em diferentes contextos. Como nossa realidade é determinada pelos contextos, só a Etnografia pode captar as nuances destas variadas situações. Coisa que não poderia ser feita num grupo de foco, pois sabemos que a sala de espelho é um contexto nem um pouco habitual na vida das pessoas. Disso, percebe-se o quanto temos que relativizar as verbalizações das pessoas, quando elas são feitas fora de seus contexto.

Mesmo na etnografia, muitas vezes, a pessoa vai responder pensando em o que o pesquisador quer ouvir. Por isso, mais importante do que ouvir e aceitar as respostas das pessoas, é observar se o comportamento delas bate com o que elas falam. A verdade está no gesto ou no comportamento.

Em uma imersão etnográfica, você não sabe onde vai estar a resposta, nem qual é a pergunta a ser respondida. Não se trata de responder, mas de descobrir o significado das coisas na vida das pessoas. Serve para descobrir questionamentos. É uma tentativa de fazer uma observação a partir dos olhos dos outros.

Descobrir sem partir de hipóteses. O pesquisador não pode ir para a casa das pessoas com nenhum tipo de estereótipo sobre ela. Essa é a principal armadilha capaz de levar o método por água abaixo. Aliás, segundo Marcela, é bom ir para uma etnografia sabendo somente o nome da pessoa. Sem saber descrições de comportamento, situação da vida dela…. Isso só restringiria o seu olhar e suas possibilidades de observação.

Ela pensa: “vou me encontrar com aquilo que eu vou descobrir, seja lá o que for.” Só isso. Um bom exercício a se fazer é observar o que não se vê em algum ambiente. Isso mesmo, comparar o que eu vejo e o que eu não vejo.

Nunca se pode induzir resposta nenhuma, nem que o pesquisador saiba que a palavra está na ponta da língua da pessoa. O importante é saber como ela tenta se expressar (verbalmente e corporalmente) para falar sobre alguns assuntos.

O nível de sofisticação dos ingleses neste assunto me surpreendeu. As agências e empresas de Londres não querem mais que londrinos façam etnografia na própria cidade. Dão prioridade a estrangeiros ou pessoas que não conheçam o lugar. Isso porque quando você está há muito tempo em um mesmo lugar, você não vê mais nada, não percebe os detalhes e nuances de comportamento.

Além de tudo isso, a mais óbvia utilidade da etnografia é descobrir qual o momento do dia e qual a maneira que alguma mídia pode atingir determinada pessoa.

Como qualquer outra técnica de pesquisa, a etnografia tem suas limitações. A própria presença do pesquisador na casa ou lado das pessoas durante todo o dia já pode modificar o comportamento delas. Eu não andaria somente de cueca dentro da minha casa, como faço normalmente, se alguém estivesse me acompanhando todo o tempo.

Diego Senise

Viral editorial

“Mais de 100 livros foram encontrados hoje na cidade de São Paulo. A editora Matrix resolveu deixar livros nos bancos de praças, de metrôs e pontos de ônibus. A idéia é que as pessoas os encontrem, leiam, e depois troquem entre si por outros livros cedidos pela própria editora.”

Me surpreendi ao ver este caso na mídia. Talvez porque o mercado de editoras comunique muito pouco para os consumidores finais. A única coisa que vemos são propagandas dos lançamentos de best-sellers. Nunca com foco institucional da própria editora.

O que é mais interessante nest ação da Matrix é a surpresa que ela gera nas pessoas, o que as leva a comentar e difundir o que aconteceu. Com certeza, a primeira coisa que um cara que achou o livro fez hoje foi contar pra todo mundo o que aconteceu.

Não sei se esta ação muda o relacionamento das pessoas que encontraram os livros com a marca Editora Matrix. Mas, talvez, mude um pouco a relação delas com a leitura, o que já é um grande passo. Ensinar o prazer da leitura para classes baixas é um carência no Brasil – e essa “causa” ainda não foi apropriada por nenhuma marca.

Por enqunato, só sabemos que o resultado de mídia espontânea desta ação é surpreendente – porque envolve algo interessante para as pessoas e para a cidade. Ou alguém aí já tinha ouvido falar da Editora Matrix?

editora-matrix.jpg

Diego Senise