Arquivo para maio \29\UTC 2008

Palavra em Chico Buarque | teoria e arte

Sugiro que você ouça a música e acompanhe a letra antes de guiar seu ouvido por esse texto.

Uma Palavra, Chico Buarque

Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra (1)

Palavra viva (2)
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra (3)

Palavra dócil
Palavra d’agua pra qualquer moldura (4)
Que se acomoda em baldo, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra

Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra (5)
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra

Talvez à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento
, palavra (6)

Genial. Chico transformou em poesia, todas aquelas teorias sobre linguagem que aprendemos por aí.

(1) Crua e anterior ao entendimento. A palavra por si só, junção de letras, tem sua existência anterior o significado que elas geram para as pessoas, são significantes antes de serem significados. São figuras estéticas, existem por sua forma, somente porque, bonitas ou feias, geram impacto no olhar. São capazes de gerar algum sentimento no receptor, mesmo que ele não saiba o que aquilo quer dizer. Ou seja, a palavra existe mesmo sem seu significado.

(2) Viva: a linguagem está em constante transformação pelo seu uso social. A linguagem não pode ser pensada alheia à práxis. Ela se atualiza a todo instante em que é enunciada. Isu si percebi naum soh pela jeitu q si escreve na net, mas tb pelos neologismos, gírias etc.

(3) Feita de luz mais que de vento. Neste contexto, trazemos o significado tradicional de “luz” como razão, esclarecimento. Ora, este é justamente o papel das palavras e de qualquer linguagem escrita: tentar definir algo que existe na realidade ou no pensamento, fixar significados definitivos, esclarecer a diferença entre as coisas, organizar o modo como percebemos a realidade, enrijecer a realidade como se ela não estivesse vulnerável ao “vento”, fugacidade das coisas, fluxo inapreensível das coisas no tempo ou à percepção diversa das pessoas. Luz x vento, permanência x fluxo, palavra x realidade.

(4) Palavra d’agua pra qualquer moldura. Traz o sentido claro que as palavras se adaptam a qualquer contexto social, visão de mundo ou ideologia. Pode “falar” de nazismo E sobre, arte ou ciência, amor ou ódio, bem ou mal. A palavra é indiferente à vontade e à ética do homem.

(5) ‘Matéria’ traz intertextualidade com a palavra ‘prima’ na primeira estrofe. Matéria-prima é algo bruto. As palavras estão aí para serem manejadas, para criarem beleza. Tem o potencial de criar o Belo, desde que se saiba brincar com essas maravilhosas “peças de Lego”, desde que se saiba surpreender pela palavra. Essa visão do verso de Chico lembra Drummond: “Penetra surdamente no mundo das palavras.Lá estão os poemas que esperam ser escritos.”

(6) habitar fundo o coração do pensamento. No corpo, coração é o órgão mais importante. No pensamento, a linguagem é o mais importante. Isso não quer dizer que penso por meio de palavras e que meu pensamento é como um texto. Quer dizer que sem a linguagem não existe o pensamento conceitual, elaboração de conteúdo que transcende a simples reprodução. É simples. Eu não conseguiria pensar conceitos sobre o comunismo se a língua não tivesse definido dentro de mim o significado das palavras: classes sociais, operário e burguesia. Seria um vazio conceitual pela falta do aprendizado lingüístico.

Outros tipos de pensamento, talvez possam existir sem a linguagem, por exemplo, uma linguagem quase instintiva, como a dos animais.

Aristóteles dizia que a linguagem é o que diferencia os homens dos animais e dos deuses. Por serem feitos de matéria que se modifica a todo momento, os humanos precisam fazer comparações e, para isso, dão juízos de valor. Os animais não precisam de linguagem porque não existe necessidade de valoração moral. Há, simplesmente, reação instintiva. Já para os deuses, que não são impermanentes como os corpos humanos, não precisam comparar nada. Então, eles não fazem juízos morais também. Não faria sentido Zeus achar que Afrodite foi imoral com ele. Por isso, eles também não têm linguagem.

Isso quer dizer que nem os deuses seriam capazes de produzir maravilhas como esse poema do Chico. Talvez, eles façam algo mais ou menos belo, mas sem palavras.

Termino com uma frase que surgiu numa conversa com meu irmão: “não se pode levar a sério alguém que não gosta de Chico. Ele não deve ter entendido.”

Se você interpretou algum verso de outra maneira, comente aí.

Diego Senise

Step Verde? uma idéia…

Viajando este feriado, eu me perguntei, por que não?

Alguns argumentos:

– De quais imagens na capa de steps você lembra? Certamente de algumas relacionadas a aventura ou a animais. Nada muito criativo. Pior, nada muito explorado pelas marcas.

– As pessoas estão cada vez mais preocupadas com questões ambientais, e gostam de atrelar sua imagem a hábitos de consumo sustentáveis.

– Além de divulgar a marca espontaneamente, as ONGs ecológicas poderiam lucrar um pouco com a venda destas capas de step ou em parceria com grandes marcas automobilísticas.

– Associar uma ONG ecológica a um carro (maior poluente da atmosfera) parece uma contradição. Somente a logomarca atrás do carro não transmite a idéia que o proprietário do veículo é ambientalmente responsável. Por isso, deveriam haver outras atitudes ecologicamente corretas e comunicáveis que “permitissem” o proprietário do carro utilizar essa capa de step “verde”.

Diego Senise

Rituais e ideologia

Ontem, o Rafa e eu conversamos sobre o que a gente andava lendo. E rolou uma coincidência muito legal. Falamos duas definições iguais para coisas totalmente diferentes, partindo de leituras de áreas distintas do conhecimento.

O Rafa estava lendo Da Diáspora, do Stuart Hall. Pra ele, a frase do texto que mais o marcou foi: “IDEOLOGIA é a tentativa de fixar significados na cabeça das pessoas.”

E eu que lia O Mundo dos Bens – Para uma Antropologia do Consumo. O livro percorre teorias econômicas e estudos antropológicos para entender melhor o consumo na nossa época. Comentei com ele que o trecho mais interessante do texto falava que “RITUAIS são maneiras de se fixar significados para as pessoas.”

A pergunta logo que vem à cabeça é como duas coisas diferentes (ideologia e ritual) podem ter a mesma definição?

No livro Da Realidade Sem Mistérios ao Mistério do Mundo, Marilena Chauí explica muito bem que isso se trata de uma questão de linguagem. Ela diz que a consideração “única” de um termo é problemática. Espinosa diz que duas coisas têm a mesma definição, sob dois pontos de vista diferentes. Para esclarecer, dou este exemplo do filósofo: “Posso entender aquilo que reflete todos os raios luminosos sem modificá-los por ‘plano’. A mesma coisa entendo por ‘branco’.” Realmente, plano e branco podem ser ou não a mesma coisa. No final das contas, trata-se da consideração da linguagem e das idéias como campos de sentido, onde a definição do que é o mesmo pode ser dita e pensada de jeitos diferentes.

Certamente, há rituais nos quais a ideologia está presente, ou até mesmo rituais que foram criados para estabelecer ou fortalecer certa ideologia. Um exemplo cotidiano é o casamento cristão, que arma toda uma pompa ritual, que acaba fortalecendo a ideologia da igreja. Mas a partir daí, assumir que ritual e ideologia são a mesma coisa, já é outra história. As ciências humanas aceitam esses “absurdos lógicos”, nos quais 1 ≠ 1; ritual ≠ ideologia.

Diego Senise

O poeta e o filósofo

Sim, o mistério do tempo
Sim, o não se saber nada
Sim, o termos todos nascido a bordo
Sim, sim, tudo isso, ou outra forma de o dizer…
(Trecho do poema Realidade, Fernando Pessoa)

A genialidade de Fernando Pessoa está na capacidade de transmitir idéias sobre assuntos extremamente profundos e filosófico com uma simplicidade aterradora.
Queria ter um repertório mais rico para poder estender essa crítica, despejando minha verborragia pseudo-intelectual em períodos que parecem não ter um ponto final. Por enquanto, me contento com uma relação simples que alcancei hoje depois da aula.


Segundo o filósofo Espinosa, o real é guiado por uma lógica de causas e efeitos necessários. Uma lógica que não tem uma causa primeira, muito menos um efeito último pretendido, uma finalidade.
Quando Fernando Pessoa fala do “não se saber nada”, desta nossa aflição gerada pela falta de conhecimento sobre a causa das coisas. Quando o poeta fala sobre “o termos todos nascido a borda”, trata da ordem infinita das causas da Natureza, que fazem com que as coisas sejam do jeito que elas são.
Ora, não conseguimos apreender essas causas infinitas do passado. Isso porque já nascemos no meio desta cadeia infinita de causas e efeitos eternos… já nascemos a bordo. Não temos idéia de onde essa embarcação saiu nem para onde ela vai. Estamos a bordo, ignorantes do sentido das coisas.
Longe de mim fazer uma associação peremptória entre Fernando Pessoa e a filosofia espinosana. O interessante é perceber como o poeta consegue “traduzir” teorias complexas na forma de versos tão simples e belos.
Diego Senise