Palavra em Chico Buarque | teoria e arte

Sugiro que você ouça a música e acompanhe a letra antes de guiar seu ouvido por esse texto.

Uma Palavra, Chico Buarque

Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra (1)

Palavra viva (2)
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra (3)

Palavra dócil
Palavra d’agua pra qualquer moldura (4)
Que se acomoda em baldo, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra

Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra (5)
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra

Talvez à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento
, palavra (6)

Genial. Chico transformou em poesia, todas aquelas teorias sobre linguagem que aprendemos por aí.

(1) Crua e anterior ao entendimento. A palavra por si só, junção de letras, tem sua existência anterior o significado que elas geram para as pessoas, são significantes antes de serem significados. São figuras estéticas, existem por sua forma, somente porque, bonitas ou feias, geram impacto no olhar. São capazes de gerar algum sentimento no receptor, mesmo que ele não saiba o que aquilo quer dizer. Ou seja, a palavra existe mesmo sem seu significado.

(2) Viva: a linguagem está em constante transformação pelo seu uso social. A linguagem não pode ser pensada alheia à práxis. Ela se atualiza a todo instante em que é enunciada. Isu si percebi naum soh pela jeitu q si escreve na net, mas tb pelos neologismos, gírias etc.

(3) Feita de luz mais que de vento. Neste contexto, trazemos o significado tradicional de “luz” como razão, esclarecimento. Ora, este é justamente o papel das palavras e de qualquer linguagem escrita: tentar definir algo que existe na realidade ou no pensamento, fixar significados definitivos, esclarecer a diferença entre as coisas, organizar o modo como percebemos a realidade, enrijecer a realidade como se ela não estivesse vulnerável ao “vento”, fugacidade das coisas, fluxo inapreensível das coisas no tempo ou à percepção diversa das pessoas. Luz x vento, permanência x fluxo, palavra x realidade.

(4) Palavra d’agua pra qualquer moldura. Traz o sentido claro que as palavras se adaptam a qualquer contexto social, visão de mundo ou ideologia. Pode “falar” de nazismo E sobre, arte ou ciência, amor ou ódio, bem ou mal. A palavra é indiferente à vontade e à ética do homem.

(5) ‘Matéria’ traz intertextualidade com a palavra ‘prima’ na primeira estrofe. Matéria-prima é algo bruto. As palavras estão aí para serem manejadas, para criarem beleza. Tem o potencial de criar o Belo, desde que se saiba brincar com essas maravilhosas “peças de Lego”, desde que se saiba surpreender pela palavra. Essa visão do verso de Chico lembra Drummond: “Penetra surdamente no mundo das palavras.Lá estão os poemas que esperam ser escritos.”

(6) habitar fundo o coração do pensamento. No corpo, coração é o órgão mais importante. No pensamento, a linguagem é o mais importante. Isso não quer dizer que penso por meio de palavras e que meu pensamento é como um texto. Quer dizer que sem a linguagem não existe o pensamento conceitual, elaboração de conteúdo que transcende a simples reprodução. É simples. Eu não conseguiria pensar conceitos sobre o comunismo se a língua não tivesse definido dentro de mim o significado das palavras: classes sociais, operário e burguesia. Seria um vazio conceitual pela falta do aprendizado lingüístico.

Outros tipos de pensamento, talvez possam existir sem a linguagem, por exemplo, uma linguagem quase instintiva, como a dos animais.

Aristóteles dizia que a linguagem é o que diferencia os homens dos animais e dos deuses. Por serem feitos de matéria que se modifica a todo momento, os humanos precisam fazer comparações e, para isso, dão juízos de valor. Os animais não precisam de linguagem porque não existe necessidade de valoração moral. Há, simplesmente, reação instintiva. Já para os deuses, que não são impermanentes como os corpos humanos, não precisam comparar nada. Então, eles não fazem juízos morais também. Não faria sentido Zeus achar que Afrodite foi imoral com ele. Por isso, eles também não têm linguagem.

Isso quer dizer que nem os deuses seriam capazes de produzir maravilhas como esse poema do Chico. Talvez, eles façam algo mais ou menos belo, mas sem palavras.

Termino com uma frase que surgiu numa conversa com meu irmão: “não se pode levar a sério alguém que não gosta de Chico. Ele não deve ter entendido.”

Se você interpretou algum verso de outra maneira, comente aí.

Diego Senise

4 Responses to “Palavra em Chico Buarque | teoria e arte”


  1. 1 Felipe Senise maio 30, 2008 às 7:06 pm

    Muito bom! Isso sim que é “produção de conteúdo”, expressão tão vulgarizada nesse mundinho besta 2.0

    Quanto ao Chico, não quero que as pessoas tenham zilhões de CDs no iPod e ouçam o dia inteiro como eu, mas falar que é ruim é um atentado contra a música, a poesia, a inteligência, a palavra… ou seja, quem diz uma blasfemia dessas não entendeu e não entendeu bonito!

  2. 2 Roseli junho 15, 2008 às 5:02 pm

    Felipe
    Muito bom!!
    Estou orgulhosíssima de você.
    Isso faz valer à pena ser professora.
    Por que você não organiza a apresentação deste texto, mais o reflecom, para o Congresso da Intercom em Natal/RN?
    Um grande abraço, Roseli

  3. 3 Roseli junho 15, 2008 às 5:05 pm

    Ups!!! é Diego; o Felipe é o irmão, não é?
    Abraço para você também Felipe, mas o Diego arrasou!!!Roseli

  4. 4 anonimo junho 29, 2009 às 2:40 am

    só um comentário sobre o verso “habitar fundo o coração do pensamento”.
    É até meio difícil pra mim, explicar a minha interpretação. Mas eu entendi que ali ele fala da utilidade e necessidade da palavra morar, dar vida ao pensamento, mas não pra um pensamento “frio” e sim um que comporte emoção. Lá “no coração do pensamento”.
    E faço daí uma interpretação até do propósito da obra dele, que sem querer parecer pretenciosa, sempre vem com alguma emoção, seja com força drámatica ou humor, mesmo que seja somente retratando o cotidiano.
    Mas não estou certo se eu estou certo (rsrs). A interpretação é sempre pessoal.


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