Archive for the 'Conversa dos outros' Category

Conversa dos outros #4

Fran´s Café, durante o almoço.

“Então, já vai fazer 8 meses que tô morando aqui em São Paulo. Mas sempre comprei tudo no Rio de Janeiro, sabia? Roupas, eletrônicos, calçados, até pra cortar o cabelo eu ia pro Rio”. Os amigos ao redor da mesa, curiosos, lançaram logo um porquê. O rapaz, rindo ao montes como quem antecipa o final de uma piada esdrúxula, conclui: “Pô, o Rio precisa muito mais do meu ICMS do que São Paulo! Fala ae! Rá!”

Ninguém riu.

Rafael Lavor

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Conversa dos outros #3

Velhinho conversando com velhinha na fila de remédios do SUS, centro de São Paulo:

“Nunca tomei remédio. Meu remédio é carne gorda, forró e samba.. Não tenho mulher, não. Vou mesmo é procurar mulher dos outros. Levar mulher no baile? Não. É que nem levar marmita no restaurante!”

Conversa dos outros #2

Padaria Euroville, Pompéia

Um casal de jovens senta-se à mesa. Uma garota franzina, baixinha, com roupinhas coloridas de dia frio. Um garoto de chapéu, blazer de lã, e um presente para a garota escondido entre as pernas. Conversam baixo, falam sobre o tempo e sobre amigos, riem, sorriem e se calam. Num instante, a menina levanta e vai ao banheiro.  Nesse momento, o garoto aproveita a deixa, pega o presente, e o coloca cuidadosamente no assento da garota. Senta-se de novo, um pouco inquieto, e espera pela felicidade da amiga ao encontrar a surpresa no banco.

Ela volta do banheiro. Olha para o presente: um cavaquinho com um declaração de amor escrita em seu corpo. Ela faz uma cara amarela, aponta para o cavaquinho, entorta a boca, não sorri, e parece não entender o que está acontecendo. O rapaz tenta explicar, faz um esforço, mas já notou que ela não gostou. A cara dele seria cômica, se não fosse trágica.

Conversa dos outros #1

Campo Limpo, periferia de São Paulo.

“O churrasco virou a noite ao som de samba. Da laje, a gente conseguia ver as mansões do Morumbi olhando para um lado e a favela do Capão Redondo virando para o outro. Estava ficando de manhã quando todo mundo sentou. E ficamos lá, vendo o pôr-do-sol nascendo.”

Conversa dos outros

Tem uma coisa que eu e o Rafa passamos a fazer bastante depois que a profissão nos levou a observar o comportamento humano. A gente ficou viciado em ouvir a conversa do outros. Isso mesmo. Descaradamente. Ao invés de sentar no banco mais distante possível das pessoas no ônibus ou na padaria, a gente senta no mais próximo pra tentar aproveitar alguns drops de “vida real” fora da mundinho publicitário.

Essas pequenas história do dia-a-dia são deliciosas. Por isso, a maioria dos cronistas usa este método para escrever seus textos: retirar do dia-a-dia um momento interessante e, a partir deste recorte, desenvolver uma história.

É impressionante como elas trazem todo tipo de conteúdo para quem está ouvindo: humor, poesia, sofrimento, reflexão e, por que não, algum insgiht para o nosso trabalho. Porque é com amigos, família e namorado que as pessoas se abrem, falam os sentimentos mais profundos e verdadeiros… não numa sala de pesquisa.

Bom, a partir de agora, traremos alguns destes momentos de observação aqui para o Logopéia.

Diego Senise